Levantamento de Fauna: como funciona o processo de campo

Levantamento de Fauna: como funciona o processo de campo

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imagem de um mico leão dourado deitado em um galho de árvore com o título levantamento de fauna

As primeiras horas do dia são preciosas: é quando os pássaros cantam com mais intensidade, quando os mamíferos noturnos ainda deixam rastros frescos no barro e quando a temperatura baixa faz as cobras saírem para se aquecer.

Essa é a realidade de um levantamento de fauna. E ela é bem diferente do que a maioria das pessoas imagina quando pensa em um estudo ambiental.

O levantamento de fauna é o conjunto de metodologias científicas empregadas para identificar, registrar e avaliar a diversidade de animais presente em uma determinada área.

Ele é um dos pilares dos estudos ambientais exigidos no licenciamento, e também uma das atividades mais ricas e tecnicamente desafiadoras da consultoria ambiental.

Neste artigo, você vai entender o que os técnicos fazem, quais ferramentas utilizam para cada grupo de animais, o que os dados revelam e por que um bom levantamento de fauna pode ser decisivo para o futuro de um empreendimento e de um ecossistema.

Por que o levantamento de fauna é tão importante?

Antes de qualquer metodologia, é preciso entender o porquê desse estudo. Os animais não são apenas parte da paisagem, mas são indicadores do estado de saúde de um ecossistema.

A presença de determinadas espécies, ou a ausência delas, conta uma história sobre a qualidade do habitat, a pressão antrópica sobre a área, a conectividade com fragmentos florestais vizinhos e o estado de conservação das comunidades biológicas locais.

Um levantamento de fauna bem conduzido é capaz de responder perguntas importantes:

  • Existem espécies ameaçadas de extinção na área de influência do projeto?
  • O empreendimento afetará rotas de migração de animais ou corredores ecológicos?
  • Há populações de fauna que dependem exclusivamente dessa área para reprodução?
  • O impacto sobre a fauna é reversível ou os danos serão permanentes?
  • Quais medidas de mitigação e compensação são adequadas para essa comunidade específica de animais?

As respostas a essas perguntas são determinantes para o Estudo de Impacto Ambiental (EIA), para o estabelecimento de condicionantes de licenciamento e para o dimensionamento da compensação ambiental.

Um levantamento superficial ou tecnicamente frágil pode resultar na subestimação de impactos reais e nas consequências jurídicas e ambientais que isso acarreta.

Quando o levantamento de fauna é exigido?

O levantamento de fauna é um componente obrigatório de diferentes tipos de estudos e processos ambientais:

ContextoO que o levantamento subsidia
EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental)Diagnóstico da fauna na área de influência; avaliação dos impactos do empreendimento; proposição de medidas mitigadoras e compensatórias;
Inventário Florestal para supressão de vegetaçãoIdentificação de fauna dependente da vegetação a ser suprimida; subsídio para o plano de resgate e afugentamento de fauna;
PRAD / Monitoramento pós-intervençãoAvaliação da recuperação da fauna após restauração; verificação do cumprimento de condicionantes de licença;
Planos de Manejo de Unidades de ConservaçãoCaracterização da comunidade faunística para subsidiar as zonas de manejo e os programas de gestão da UC;
Diagnóstico Ambiental de PropriedadeIdentificação de espécies ameaçadas ou de interesse conservacionista para orientar o manejo sustentável da propriedade;

O planejamento antes do campo

Um levantamento de fauna começa muito antes de qualquer técnico colocar os pés na área. A fase de planejamento é tão crítica quanto o trabalho de campo em si, e é aqui que os erros mais custosos são evitados.

Definição das áreas de amostragem

Com base em imagens de satélite, mapas de vegetação e o conhecimento das fitofisionomias locais, a equipe define os pontos e transectos de amostragem: os locais onde os diferentes métodos serão aplicados.

O objetivo é cobrir a maior diversidade possível de habitats: borda de mata, interior florestal, margens de córregos e áreas alagadas; e áreas de transição.

Cada grupo faunístico tem seu período de maior atividade: aves são melhor amostradas ao amanhecer, anfíbios durante e após chuvas noturnas, mamíferos de médio e grande porte ao longo de dias consecutivos com armadilhas fotográficas.

Grupos Faunísticos e Metodologias de Campo

Cada grupo de animais têm comportamentos, habitats e ciclos de atividade muito diferentes entre si.

Por isso, o levantamento de fauna na prática, abrange vários estudos simultâneos.

Avifauna (Aves)

As aves são, frequentemente, o grupo mais informativo e acessível. São sensíveis a alterações no habitat, facilmente detectáveis por vista e som, e possuem vasta literatura científica de referência.

Ficha de Campo — Avifauna: a amostragem da avifauna ocorre preferencialmente ao amanhecer (5h30–9h) e ao entardecer (16h–18h30). O método principal utilizado é o ponto de escuta. Entre os equipamentos empregados estão binóculos, gravadores com microfone direcional, câmera teleobjetiva e aplicativos de identificação.

São registrados o nome científico e popular, quantidade de indivíduos, comportamento, coordenadas GPS e tipo de evidência.

Mastofauna (Mamíferos)

Mamíferos são discretos, muitos de hábitos noturnos, e raramente vistos diretamente em campo. Por isso, o levantamento desse grupo depende de métodos indiretos de detecção, e de muita paciência.

Uma armadilha fotográfica instalada por 30 dias pode capturar imagens que um técnico passando pela mesma trilha 30 vezes jamais obteria.

Ficha de Campo — Mastofauna: a amostragem de mamíferos combina diferentes métodos indiretos e diretos de detecção. Utilizam-se armadilhas fotográficas acionadas por movimento em locais estratégicos, transectos de pegadas em estações de areia ou argila revisadas diariamente e busca ativa noturna com lanternas para detectar reflexo ocular de médios mamíferos.

Como destaque técnico, a ocorrência de grandes predadores (como onça-parda e jaguatirica) é verificada principalmente por armadilhas fotográficas, indicando a qualidade do habitat e a conectividade ecológica da área.

Herpetofauna (Anfíbios e Répteis)

Anfíbios e répteis são dois grupos com ecologias muito distintas, mas frequentemente estudados em conjunto sob o nome de herpetofauna.

Os anfíbios (rãs, sapos, pererecas e salamandras) são altamente sensíveis à qualidade da água e do ar, sendo excelentes bioindicadores de contaminação. Os répteis (serpentes, lagartos, quelônios e jacarés) revelam a integridade estrutural da vegetação e dos corpos d’água.

Ficha de Campo — Herpetofauna: são utilizadas também armadilhas de interceptação e queda (pitfall com cerca-guia), compostas por baldes enterrados e inspecionadas periodicamente. À noite, realiza-se a amostragem auditiva para identificação de anfíbios pelos seus cantos em corpos d’água, além da busca em habitat aquático utilizando puçás e redes.

Os períodos ideais variam: noites chuvosas para anfíbios e manhãs ensolaradas para termorregulação de répteis. Como destaque técnico, a diversidade de anfíbios serve como um importante indicador da qualidade ambiental, refletindo rapidamente a degradação do habitat.

Ainda existe a pesquisa sobre ictiofauna (Peixes) e Entomofauna (Insetos) que também são de extrema importância para verificar a qualidade do habitat.

O que acontece depois do campo

Depois de dias ou semanas de campo, a equipe retorna com fichas de campo preenchidas, arquivos de áudio, fotografias, vídeos de armadilhas, amostras biológicas e coordenadas GPS.

Começa então a etapa mais demorada do processo: a análise.

Triagem e Identificação

Cada registro é revisado: fotografias são comparadas com guias de campo e consultas a especialistas taxônomos, gravações de canto são analisadas com softwares, amostras de insetos são montadas e identificadas em lupa binocular.

Espécies de identificação difícil passam por consulta a especialistas ou, no caso de pequenos mamíferos, podem passar por análise cromossômica ou de DNA para confirmação taxonômica.

Análise de Dados

Com a lista de espécies confirmada, a equipe aplica índices ecológicos para interpretar os dados:

  • Riqueza de espécies: número total de espécies registradas, quanto maior, mais diverso o ambiente;
  • Abundância relativa: quais espécies dominam numericamente e quais são raras ou ocasionais;
  • Índice de Shannon-Wiener (H’): medida de diversidade que considera tanto a riqueza quanto a equabilidade, a regularidade com que as diferentes espécies aparecem;
  • Suficiência amostral (curva do coletor): gráfico que indica se o esforço de campo foi suficiente para representar a diversidade real da área — uma curva que se estabiliza indica que novas campanhas provavelmente não adicionariam muitas espécies novas;
  • Status de ameaça: cruzamento da lista registrada com as portarias oficiais de espécies ameaçadas (MMA, IEF/MG, IUCN).

Relatório Final

O produto do levantamento é um relatório técnico detalhado que inclui a lista completa das espécies com as especificações técnicas necessárias até a localização dos pontos onde foram feitos os registros e as imagens obtidas.

O documento ainda deve contar com análises de diversidade e uma discussão sobre as espécies de interesse conservacionista e recomendações para a mitigação dos possíveis impactos.

Um bom relatório de levantamento de fauna é um diagnóstico do que a área abriga, do que pode perder se o projeto avançar sem cuidado, e do que precisa ser protegido ou compensado.

Afugentamento e Resgate de Fauna: antes da supressão

Quando o levantamento é realizado no contexto de uma supressão de vegetação autorizada, ele precede e subsidia uma etapa adicional obrigatória: o afugentamento e resgate de fauna.

Antes de qualquer máquina entrar em campo, técnicos percorrem a área a ser suprimida para espantar os animais móveis (aves, mamíferos, répteis) para fragmentos florestais adjacentes dando a eles a oportunidade de se deslocar para um habitat seguro.

Animais que não conseguem se deslocar sozinhos (filhotes, animais debilitados, espécies de baixa mobilidade) são capturados, avaliados e soltos em área de habitat adequado.

Todo o processo é registrado em relatório de afugentamento e resgate, exigido pelo órgão ambiental como condicionante da autorização de supressão.

A Biosfera em Campo

O levantamento de fauna é, acima de tudo, um ato de humildade científica: reconhecer que uma área carrega mais vida do que os olhos conseguem ver na primeira passagem, e que entender essa vida é condição para tomar decisões responsáveis sobre o que acontece com ela.

Seja para cumprir uma exigência do licenciamento ou para genuinamente conhecer o que habita uma propriedade ou fragmento florestal, um levantamento de fauna bem conduzido é um investimento no entendimento do território e no planejamento de um desenvolvimento que respeite o que ele abriga.

A Biosfera Consultoria Ambiental realiza levantamentos de fauna em projetos de licenciamento ambiental, diagnósticos de propriedades rurais, inventários para supressão de vegetação, afugentamento e resgate de fauna em áreas de supressão e monitoramentos de fauna.

Fale conosco e saiba como podemos apoiar o seu projeto com estudos de fauna completos, tecnicamente sólidos e em conformidade com as exigências dos órgãos ambientais.

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